terça-feira, 23 de março de 2010

LADRÕES DE BICICLETA - A vida laboro

Por Sâmila Braga


Antonio Ricci (Lamberto Maggiorani) atravessa tempos, culturas, nações. É personagem luta, símbolo, sofrimento. Operário da família, dos dias, do sistema. Encarna a alegria singela do desencantamento. Ao lado do filho Bruno (Enzo Staiola), encanta. A rica pobreza do homem que busca o prato. O que pareceria comum se transforma numa das tramas mais emocionantes da história do cinema. O roubo da bicicleta. Não pode lutar contra a inércia do mecanismo que controla, mantém. Deseja humanamente o trabalho sobre as duas rodas. E todas as migalhas que os patrões oferecem como vantagens. O abono familiar faria Bruno feliz. Aceita. O mesmo destino que lhe deu a sorte de ser tirado da massa de desempregados napolitanos no pós-guerra, levou suas rodas embora.


Um filme que trata da sociedade que exclui e do ser humano como fruto inerte diante de decisões maiores, vindas de artífices ocultos, propositalmente desapercebidos. A incrível e neo-realista capacidade de mostrar o banal que é subsistência. O homem proletário, arrimo de família, que enfrenta com o filho o desdém da burguesia que come às custas dos seus. Na cena em que Antônio e Bruno estão no restaurante, isso se faz evidente. Desde criança se pratica e se sofre os preconceitos de classe. A dupla esfarrapada, de única refeição, contrasta com a família de mesa cheia de margueritas, pizzas e sordidez. No decorrer da busca pela bicicleta perdida e esperanças arrancadas, pai e filho mergulham no mercado negro das bicicletas, perseguem um velho, vagueiam na chuva. Talvez seja nesse último momento em que a emoção do espectador seja mais depositada nos semblantes dos personagens. Rotos, sombrios, molhados, na lama do chão e da vida, seus olhos caminham sem saber o quê e como fazer para recuperar o que nem podem imaginar onde esteja.



Nos instantes finais da película, Ricci se faz desespero. Mãos na cabeça, incertezas. Há algo parado à uma porta que o chama, dizendo que ele pode recuperar o emprego, a alegria e o sustento da família. Consuma. Rouba uma bicicleta, mas é pego. Agora Ricci é vergonha. Sua face treme diante de Bruno. Não o prendem, por piedade. Não sabem de nada. Ricci não é ladrão de bicicletas. Mas já não adianta tentar explicar. Há muitas coisas por trás disso. Ele chora. Nós também.


quinta-feira, 11 de março de 2010

OS INCOMPREENDIDOS - "O Incompreendido"

Por Alan Regis Dantas



Os Incompreendidos marca a estréia de François Truffaut no cinema de longa-metragem. Uma obra que se estabelece também pelo traço emocional que está veiculado a cada cena. A infância de Antoine Doinel, garoto de país irresponsáveis da Paris do final dos anos 50, rende algumas reflexões importantes a respeito de valores que são transferidos através das gerações.

Quem nunca, na infância, se deparou com o questionamento das ações adultas? Os país estão realmente certos o tempo todo e tudo podem com os filhos? O que se passa na cabeça de um garoto que observa a traição da mãe? O preto e branco ajudam a visualizar as reações de um pequeno que não queria nada mais do que conhecer o mar e fugir, desaparecer de um mundo alimentado por dor e ressentimentos. Distante de tudo isso a fuga frustrada ainda lhe rende humilhações e a antiga gráfica do tio serve de abrigo e refúgio.



Doinel perde a infância. Roubos, rebeldia. Certas cenas mostram imagens do divertimento infantil e inocente em contraste com um menino fumante, um homem. A cadeia pelo roubo de uma máquina de escrever parece simbolizar a perda da própria liberdade de expressão. A única saída é a educação militar. Mas é justamente esse o momento em que ele rompe as correntes e corre para o fim.


A praia. Cenário aberto, límpido. Diferente dos ambientes internos e apertados mostrados durante o filme de 1959, o mar é o palco da liberdade. O final surpreende àqueles que queriam algo mais. Mas arte é “causar sensação”. Deixar o sabor do incompleto parece ser o fascínio da obra de Truffaut. E é isso que faz de Os Incompreendidos um clássico da nouvelle vague.

quinta-feira, 4 de março de 2010

ZELIG - O que ele mais queria era ser aceito...

Por Sâmila Braga





Mudar para ser aceito. Quem nunca tentou que atire a primeira pedra. Esse era o drama de Zelig, vulgo Camaleão. Sua psicopatologia virou icone, camisas, músicas, capas de jornal, a cultura de uma época. A doutora Eudora Fletcher pega o caso do paciente que já passou por F. Scot Ftzgerald. Assim se passa a trama. Trajando as vestes de um documentário passado por volta de 1920 ou 1930, o enredo diverte-se com o gênero. O que seria chato vira a comédia encarnada por Woody Allen. Ele, multifacetado, assume o roteiro, a direção, o papel principal. As expressões, ou a falta delas, são ilariantes.

Especialistas convidados para mentir uma quase verdade. Nomes que pesariam em qualquer grande documentário, que buscasse retratar o real, ajudam a construir a engraçada história de Zelig.


Muito de psicologia, dos hábitos sociais, complexos. O desejo latente que cada um tem de se encaixar, de pertencer a um grupo, da construção do pseudo como forma de aceitação. Digamos que Zelig seja uma hipérbole desse desejo.


O filme de Allen ainda mostra como a sociedade encara as diferenças e busca pela igualdade. A mídia que informa com alarde transforma os menores fatos em espetáculo. Nesse caso, havia um grande caso, não foi preciso crescer histórias para vender jornais.

Mestre na sétima arte, o diretor mescla cenas de cinejornais de época e trabalha com a película em preto e branco para se aproximar do real, do histórico. O trabalho de produção proporciona a esses laços uma consistência sem igual. A tecnologia empregada vem de filmes anteriores, como Forest Gump. O realce acontece em cenas em que Zelig aparece próximo de Al Capone, Willian Randolph, Bobby Jones, Charlie Chaplin, o Papa Pio XI ou Adolf Hitler. É a magia de fazer rir ou chorar vindas dos grandes óculos de olhar caido.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

CINEFA7 AO PÔR DO SOL


A partir do mês de março de 2010 o CINEFA7 em parceria com a Centro Acadêmico Agerson Tabosa - CAAT realizará uma segunda sessão nas quartas feiras. Atendendo à diversos pedidos de estudantes que gostariam de frequentar o cineclube em outro horário, além das sessões às 11h20 os filmes serão exibidos também às 17h.

A programação de filmes não muda e o horário é ideal, pois não atrapalha aqueles que estudam no turno da noite da faculdade. Então está feito o convite. Venha curtir um bom filme no fim de tarde e ganhe em troca muita arte , horas complementares e concorra a filmes no Cadeira Cativa CINEFA7!

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

A FRATERNIDADE É VERMELHA - Os valores são humanos e vermelhos

Por Sâmila Braga






Julgamento e valores. Esses são os temas centrais por que passeia Kieslowski na última trama da Trilogia das cores. As paixões do ser, a fraternidade vermelha, humana. Um juiz aposentado, com a experiência da vida e dos tribunais radioescuta vidas alheias, coincidências, acasos. Julga, subjulga, retira lições, aprende com o outro. Aprendera a tempos que o ser é vulnerável assim como ele. O erro dos outros pode ser julgado? Talvez indague-se. Essa quetão o consome . Julgar o erro rotineiramente, como profissão. Torturante. A trama persegue o encontro, o desencontro, o que podia ser e o que não foi. A amizade que se gera entre o juiz e a modelo, a partir do atropelamento da esperta cadela, dá margem ao aprendizado, à preponderações.

O que é certo? Quem decide? Moralmente condenável ou socialmente aceito? Verdade, culpa, valores. A subjetividade de cada um é o fator determinante.O juízo de fato ou o de valor? O que decide um caso, as questões, a vida? Uma obra reflexiva que discute vícios sociais e aponta para apreenssões humanas. O vermelho que figura em cada pedaço das cenas transborda ao som de uma trilha magistral. Irene Jacob interpreta a modelo e se acende como musa do diretor. A metafotografia que aparece em algumas cenas diverte e atrai. O comercial-arte do chiclete que faz parar carros e entrelaça histórias.

O final que reúne as cores anteriores só se faz claro para quem teve acesso ao azul e ao branco, num misto dos personagens de uma e de outra, o naufrágio congrega todas as tramas da Trilogia das Cores. Surpreendente, dá margem ao que aconteceria dali em diante. Simplesmente Kieslowski.



quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A IGUALDADE É BRANCA - Hoje tudo se compra

Por Alan Regis Dantas




A comédia de Krzysztof Kieslowski em A igualdade é Branca se baseia nos vícios da espécie humana e na dor de um homem que não satisfez a esposa. Completamente destruído, ele ainda acha que tem esperanças com Dominique, mas o pior ainda estava por vir. O telefone gemia, gritava ao passo que Karol era destruído por uma casamento que não deu certo.

A montagem da trama passa por momentos onde não se sabe exatamente o que o homem está pensando: reconstruir a vida, esquecendo aquilo que passou e se libertar como fez Binoche (aliás ela pode ser vista no fundo da sala do julgamento do divórcio)? Mas nada disso. A Igualdade é Branca, sem vida ou emoções. Diante dela nenhum ser humano está tranqüilo.

Karol passa por experiências frias mata, morre, é espancado. Mas seu gênio e determinação permanecem ativos, cegos pela sede da vingança. Mais uma vez a morte é instrumento. Para “matar” Dominique ele primeiro acaba com a própria vida. Depois de ficar rico e se refazer, o seu plano final é surpreendente. Entrega toda a fortuna para mostrar seu desapego, planeja sua morte detalhadamente e monta a armadilha.

Ao voltar do enterro a vingança se consuma. Karol triunfa sobre o corpo da Dominique. Os dois envoltos em lençóis vermelhos se separam. Ainda não era o suficiente. A prisão de Dominique encerra a película de 1994. A frase que pode resumir a história também diz muito sobre o que somos todos nós: hoje tudo se compra!

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A LIBERDE É AZUL - A dor palpável e azul

Por Sâmila Braga


Tudo parece se acalmar. É como se nada tivesse acontecido. O azul entorpecente da piscina. A água da noite, congelante. Vir a tona, a realidade, o choque, a perda. Novos mergulhos de lágrimas que se misturam ao cloro. O azul. Julie vai passando, sem fazer nada. Conhece pessoas, gente, diferente. Assusta-se com a cria da rata. Quer eliminá-la. Não quer crianças por perto. Lembranças da maternidade que um dia já exercera. A filha e o marido se foram no acidente de carro. Ela sobreviveu. Será? Vai passando. A tentativa de suicídio frustrada foi o sinal da fraqueza. A liberdade de fazer. Não consegue, se diz fraca demais para isso. Além da piscina, passa a mergulhar na música com o homem que a ama a muito tempo. Foi seu remédio quando já não mais agüentava. Ele guardou as recordações, e comprou o colchão velho, último pedaço da casa, do passado de Julie. Queria chamar sua atenção, usou até a TV para isso, ocasionalmente conseguiu. Desejava trazê-la de volta a vida, ressuscitá-la, afinal, tinha 33 anos. Estava desprendida, livre. Já que “bens, recordações, amigos, vínculos, são tudo uma armadilha”.

Julie aprende que é preciso estar presa a algo. O mendigo/flautista lhe disse. Sua história se tece na dor palpável. Azul. Orquestrados pelo som da trilha sonora de Zbigniew Preisner, os fatos se impõem, imperativos como a música. A materialização acústica. As descobertas e retomadas. Kieslowski brinca e atrai com o que para alguns diretores são apenas recursos técnicos. As expressões dispensam as falas. Olhares, cenários e luz desdobram pensamentos, reflexões.